segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Horloge sans orbite

Anteontem voltamos a Montmartre para um rendez-vous com os amigos em um bar chamado Rendez-vous des Amis. A cerveja era meio cara, 5.25 euros, assim eu e Brown tomamos só um pint cada um. O bairro é tão simpático à noite quanto à tarde, com a significativa diferença de que à noite a maioria dos turistas foge. Perdemo-nos um pouco antes de achar o bar - vale dizer que eu disse ao Brown 'é por ali' e ele disse 'não, não é' e no fim obviamente que era por lá, sim. Mas foi de bom proveito, demos uma andada pelas ruas do bairro e gostei de tê-lo feito.

Um dos intercambistas, o espanhol Sergio, adora falar em francês. Ele foi nos últimos três rolês e acabei ficando bastante em silêncio por causa disso. Sem Sergio todo mundo se comunicava perfeitamente em inglês, e com ele quem perde sou eu - fico em silêncio, e apesar de entender algumas coisas, muitas não entendo. Faz três dias que quando Sergio chega eu choro. Tudo bem, isso me impele a buscar mais a língua e pretendo dar uma estudada boa no francês quando tiver um tempo.

Mais tarde neste dia fomos à casa da Stefania, colega Mackenzista do Brown. Teria sido muito mais interessante não estivesse eu muito incomodado com meu próprio cheiro - tínhamos saído cedo de casa e andado bastante, e óbvio que eu esquecera de mandar um desoda na sovaca. Conversei bastante com uma menina que faz Psicologia na PUC - ela tem namorado, um amigo do Brown, estudante de Direito e também intercambista aqui em Paris, mas era muito bonita e quando a conversa acabou eu já estava há uns 3 metros dela, morrendo de medo do cheirinho chegar em seu nariz - sobre coisas que nem entendo direito - medicina antroposófica, Jung, etc. -, mas claro que evidenciei vasto conhecimento. Queria saber como que eu consigo falar tanto de coisas que sei tão pouco. Acho que esse é meu dom.

Consegui convencer o Brown a ir embora, a esta altura ele também já sentia meu futum e não me surpreenderia se até os franceses que lá estavam reclamassem do odor.

Ontem acordamos tarde e perdemos - deo gratias - o ano-novo chinês que ia rolar perto da casa da Stefania. Bundamos um pouco em casa e saímos, fomos até o parque La Villette. Tava frio paporra, não ficamos parados. Fomos andando de lá até a casa do Panos, onde teve uma sessão de filmes antigos de terror. O primeiro foi The Astounding She Monster, e eu dormi. O segundo foi King-Kong vs Godzilla, e eu dormi. O terceiro estava sendo Monster on the Campus, mas fomos embora na metade.

Depois digo do dia de hoje, pois exigirá de mim uma reflexão sobre a arte moderna e contemporânea - fomos ao Pompidou, não ao Louvre como achei que iríamos.

A verdade é que sinto que estou morando aqui. Não quero tanto fazer todos os trajetos turísticos, entrar em todos os museus, quanto quero aproveitar essa cidade, do jeito que aproveito São Paulo - preguiçando. Não que não vá aos pontos turísticos, claro que vou. Mas tenho muito tempo útil e não me faz mal nenhum ter tempo inútil, também. Acredito só em tempo ganho, nada disso de tempo perdido, e o tempo em Paris parece-me que vale o dobro ou o triplo...

sábado, 28 de janeiro de 2012

Sacre Coeur

O que mais afasta o ser humano dos outros animais não é polegar opositor, telencéfalo evoluído, linguagem, nada disso. Eis o que realmente nos afasta: somos os únicos bichos capazes de criar algo que transcende nossa compreensão. Ok, somos os únicos capazes de compreensão, mas isso não mata nem fere o que eu disse.

A Torre Eiffel é enorme. Não tanto em tamanho, não tanto em largura. A Torre Eiffel é enorme em mim. Não, não estou dizendo que virei destes que compra uma camiseta 'J'aime Paris' e sai desfilando por aí. Também não estou dizendo que fiz como a excursão de coreanos e não olhei a Torre, que apenas a fotografei. Digo que a Torre Eiffel é enorme em mim porque eu olhei pra ela e ela nem olhou pra mim, nem se mexeu, nem pisou em mim, como achei que faria. A Torre Eiffel é enorme em mim porque fui eu ou foi um irmão meu que a levantou, e fui eu ou foi um irmão meu que não deixou que a derrubassem. A Torre Eiffel é enorme em mim porque ela não cabe em mim e porque ela está em mim, descabida.

Desejei algo hoje que nunca desejei - que todos os seres humanos sumissem da face da terra e deixassem-me a sós com Paris. Um par de horas é o que peço. Conversei muito com o Brown sobre o turismo, a inutilidade do turismo, e todas as coisas toscas que o turismo atrai. Disse a uma amiga que estou, sim, e estarei por um bom tempo, apaixonado por Paris, mas meu amor é São Paulo. Talvez esse seja um dos motivos - em São Paulo ninguém está lá só pra tirar foto, só pra comprar souvenir, só pra entrar no monumento X. Em São Paulo se vive. Ainda que em Paris se viva, e seja um lugar muito melhor pra se viver que a metrópole brasileira, vive-se muito menos e fala-se da vida muito mais.

Desculpem-me pela divagação emocionada. A verdade é que nem mereço dizer isso dos turistas - a compreensão dessa cidade e de tudo que a contém foi transcendida e eu não posso achar que posso olhar com os olhos que olho a minha cidade. Talvez tenha até aprendido a olhar minha própria cidade com outros olhos ou com olho nenhum. Mas fiquei um tanto decepcionado quando entrei na magnífica Basilique de Sacre-Coeur e vi que há lojas dentro do templo.

Minha decepção é com o ser humano, que tem o poder lindo de criar coisas maiores que ele e acaba fazendo coisas tão menores...

Les Femmes

Acordamos muito tarde, e ficamos em casa boa parte do dia. Sou assim, se passo frio à noite acordo disposto apenas a entocar-me. Tudo bem, energias precisavam ser recuperadas. O porquinho assou, comemo-lo com batatas e cebolas. Saímos por volta das 17h e fomos para as redondezas da Gare Montparnasse pra mó de eu comprar um chip francês pro meu celular. Brown disse que sabia onde estávamos indo e obviamente que estávamos já quase atravessando o Boulevard Périphérique quando demo-nos por vencidos e voltamos. Sem chip, pegamos o metrô e fomos até a estação Chatêlet. Mais tarde teria despedida da belga Anneleen no mesmo bar da outra noite. A rua, que é antiga, cheia de histórias, chama-se Mouffetard - aprendi ontem.

Descemos na Chatêlet porque íamos esquentar-nos na casa de Panos, um grego da faculdade do Allan. Panos é amigo de John, o dono da primeira festa, aquela do vexame. Não me senti muito bem recebido, e foi-me perguntado algo do tipo 'so, it was you the guy that was lying like dead on the staircase?' Não pensei em resposta melhor que 'yes, it was me'.

A verdade é que estou contando tudo isso pra encher linguiça - ontem foi um dia vazio, digno de uma terça-feira friorenta paulistana, onde minha maior aventura seria fazer algum download ilegal (pega eu, SOPA). Mas algo aconteceu ontem, sim, algo aconteceu que me encheu o coração. Paris é uma cidade que te apaixona a cada esquina, isso todo mundo diz e quem sou eu pra negar?! Contudo, entre as luzes, os prédios, os boulevards, há algo que muito mais pode acender le coeur daquele que é tão sensível à beleza feminina.

Les femmes parisiennes, nem todas nascidas ou vividas em Paris, mas todas com certeza parisiennes, emprestam da cidade as luzes, os cheiros, as cores e tudo o que nós homens podemos fazer frente a este espetáculo é entender o mundo. Compreendemos, quando nesta cidade, algo que sempre desconfiamos - não, James Brown, this isn't a man's world - o mundo é das mulheres. O mundo é delas e nós somos meros espectadores... Mero espectador, dedico-me a vê-las passar, e queria poder dedicar-me somente a isto pelo resto da vida...

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Tartare

Ontem eu e Brownzinho acordamos às 13h, horário de Paris, e saímos para almoçar. Fiquei de pagar um almoço pro menino por culpa do que tinha feito na noite anterior. Saímos de rolê pelas ruas de Montparnasse, mas só tinha restaurante chique. Achamos um italiano que parecia ser menos leite com pera e sentamo-nos. Um garçom até que bem humorado trouxe-nos uma lasanha à bolonhesa e um tagliatelli com salmão no mínimo decepcionantes. Nada que não acharíamos na seção de congelados do Pão de Açúcar. Voltamos para casa e ficamos por aqui um tempo. No final da tarde pedi que fôssemos à Champs Elysées, pra eu dar uma olhada no Arc de Triomphe. Ofuscou-me a visão, não o Arco, mas os flashes dos coreanos que não olhavam à enorme construção senão pelas lentes de suas câmeras. Mas o Arco, sim, enorme, resplandecente, me atraiu e me cativou. Algum tipo de cerimônia militar estava acontecendo, e como já estava anoitecido e frio, decidimos voltar logo para casa, pois sairíamos com os amigos do Brown.

Andando pela Champs Elysées interessei-me muito pelos seres humanos. Ser humano é um bichinho que gosta de luz, de cor, de luz piscando cores diferentes. Aí é batata, faça uma avenida cheia de lojas com luzes e cores na fachada e seja rico. Vi com muito gosto a fila enorme que saía da Louis Vuitton.

Chegamos em Montparnasse e fomos ao mercado comprar algo para comer. Optamos por um porquinho e umas batatas, barato e gostoso. A batata é meio árida, o purê ficou meio seco. Mas delicioso, já que eu que cozinhei. Arrumamo-nos e fomos ao River Bar, que fica em um bairrinho cujo nome me foge, mas famoso por seus bares, a quantidade de estrangeiros e por ser lar da escadaria em que todo dia à meia-noite Owen Wilson pegava uma carona à década de 20. No River Bar estavam Ana e Elena, a espanhola e a romena que eu conhecera na noite passada. Muito simpáticas, as duas. Conversamos, os quatro, por umas duas horas, em inglês - é a língua que os Erasmus (é nome do grupo de intercambistas europeus, mas o termo foi ampliado para que outros intercambistas caibam) usam para se comunicar, ainda que o francês apareça vez em quando.

As meninas quiseram ir embora e fomos comer um crêpe de Nutella com elas. Demos au revoir e andamos mais um pouco pelo bairro. Muitas fromageries, pretendo voltar um dia para comprar um belo dum Brie. Somos lindos, vocês sabem, e fomos parados por duas moças. 'Bon soir!', uma delas disse, e veio conosco vomitando um francês incompreensível aos meus ouvidos. Allan entendeu, claro, e conversou um pouco com ela. Apresentamo-nos, ela apresentou a si e à sua amiga. Quem acha que esse é o começo de uma história de amor em Paris, tira o pônei da chuva - eu e Brown somos exigentes (sem contar que ele tá de rolo com uma romena) e as meninas eram um tanto feias. Decidimos ir a pé pra casa, e passamos pela Sorbonne e pelos fundos do Panthéon.

Chegamos em casa e ficamos conversando por algumas horas com o roommate do Brown, um paranaense de nome Alexandre. Faço um capítulo exclusivo a ele quando tiver material. Estou esperando o resto do porquinho assar, depois vamos dar um rolê de bicicleta.

Tartare é a porção do Mundo Inferior grego que se opõe aos Campos Elíseos. A este vão os mortos célebres, espécie de paraíso. Àquele, as almas podres. Não, não quero entrar numas de criticar as 'almas podres' que querem a todo custo comprar uma bolsa na Louis Vuitton. Coloco os polos na mesa pra que possamos chegar na média aritmética - pois é na média aritmética que todos nós vivemos.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Doucement

Tomei dois copos de vinho na ida a Frankfurt e o resultado foi dos melhores - dormi a viagem inteira. A felicidade plena me veio quando, esperando o voo a Paris no aeroporto da cidade alemã, vi uma garrafa de Weihenstephaner de um litro a 1 euro e 50. Quis ficar na Alemanha, mas a Lufthansa me arrastou pro avião. De lá pra cá o voo foi curto e sentei-me ao lado de 5 jovens coreanos que muito me divertiram. Eu estava na janela e o moleque do meu lado dormiu de bocão aberto. Os outros começaram a tirar fotos e eu sugeri (em coreano, claro) que eles tirassem outra, de mim dando um beijinho no dorminhoco. Assim fizemos, e quando o menino que segurava a câmera mostrou a foto pros outros, não é que o cara acorda e vê a foto? Deu uma olhadinha envergonhada pra mim e se afastou um pouco.

Cheguei em Paris, muito feliz por ter tomado uma cerveja alemã e um suco de tomate no voo, e dediquei-me a compreender o caminho que faria para chegar em Montparnasse. Não foi muito difícil o caminho, ao menos não tanto quanto carregar a mala em um metrô lotado. Saí às ruas na estação Edgar Quinet e a impressão ruim que tinha tido no trem enquanto passava pela periferia de Paris apagou-se em estalo. Bairrinho lindo esse Montparnasse. 'Pegue a rua da direita na Optica 2000', disse o Brown, e obviamente que era a rua da esquerda. Tudo bem, o erro foi breve e logo cheguei ao número 63 da Rue du Montparnasse. Entrei no pequeno apartamento, dei um abraço gostoso em meu até então saudoso amigo e me desfiz do peso da mala.

Descobri por que franceses têm fama de desbanhados. Não sabem fazer chuveiro. Tive de tomar banho sentado com um chuveirinho de mão, e foi horrível. Não achei a posição certa, ao levantar-me me arranhei duas vezes na moldura do espelho, impossível lavar os cabelos.

Fomos à casa do grego da faculdade do Allan, próxima à Cathédrale Notre Dame. Fomos a pé e no caminho deparamo-nos com o Panthéon - embasbaquei-me com seu tamanho - e com a já mencionada catedral, que olharia - e talvez olhe, mesmo - por um dia inteiro. Levamos dois vinhos, cada um a 2,50 euros, e fomos tomando uma cerveja no caminho. Como eventos chance-zero têm me ocorrido bastante, esbarrei com alguns brasileiros no meio do caminho. Não quaisquer brasileiros, estudantes da USP. Uma dos três brasileiros era a Gabi, estudante da FEA que fez uma matéria na Psico neste semestre. Há algo de mais único nesse encontro, que acho que vale a pena mencionar. Além de estudante da USP, Gabi é granjeira. Eu já bolara a teoria de que Granja Viana está no Brasil inteiro (difícil fazer uma viagem no Brasil em que não se encontre alguém que mora ou morou lá), tenho de estendê-la - Granja Viana domina é o mundo.

Não nos delonguemos. Chegamos à festinha em um apartamento minúsculo em estado de lotação. Gente da faculdade do Allan, gente de todo o mundo. Conversei sobre a floresta Amazônica com um americano, sobre capoeira com um grego, não lembro o que mais. Literalmente, não lembro. Acontece que eu, no meu costume de beber cerveja, não considerei que estava bebendo vinho. 5 copos depois, mais dois de cerveja, mais uma dose de tequila, acordei às 5 da manhã na escada do prédio com Brown me chutando. Ele tinha voltado pra casa achando que o grego me daria abrigo, mas quando chegou aqui recebeu um telefonema do dono da festa, pedindo para que fosse me buscar. Voltamos de ônibus, sem pagar (malandragem dá um tempo), e lembro-me de reclamar horrores de uma privada que estava no meio da calçada. Capotamos e acordamos às 13h.

A expressão 'pega leve' é usada em francês como 'doucement'. Comecei bem a viagem, mas tenho de ir mais doucement, se não o Brown me põe pra fora da casa dele.

Vai ser difícil postar diariamente, o que acontecer de mais interessante eu digo, prometo.