quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Lapin Assault - capitulo 2,5

Não há mais muito o que falar deste dia. Posso dizer que me diverti muito mais que posso dar a entender com narrações, por dois motivos: 1) O álcool apagou parte de minha memória; 2) O tempo também o fez - não me lembro mais de detalhes que poderiam ser significativos. Tento contar levianamente, portanto, o que se passou daí em diante.

Lara precisava ir embora, em verdade precisava ter ido embora havia muito. Gustavo, que mora com ela, levou-a para casa. Íamos entrando no ônibus, eu e Brown, e foi por pouco que conseguimos sair. Não era aquele ônibus que pegaríamos para ir pra casa e não iríamos pra casa, ainda. Marta chamou-nos para ir a uma balada. Balada. Eu. Vamos, né?! Era de graça pra entrar, como a maioria das coisas que vimos aqui nas Europa. O som era aquele de sempre, aquele que sinto que ouço desde que cheguei no Velho Mundo - puts puts e Michel Teló. Fiz alguns amigos, ainda mais no banheiro. 'Je parle pas français, je suis brésilien' já bastava para ganhar um abraço (as calças já cobrindo as partes íntimas, aos engraçadolhos) e um sorriso. 'Ronaldinho'!

Conversei com variados personagens, em variados idiomas (em maioria idiomas que não falo um A), dancei, daquele jeito que só eu sei, em cima dum palquinho, etc. O mais que aconteceu nesta noite não vale para contar minhas experiências na Europa pois foram todas coisas que eu faria tranquilamente no Brasil. Voltamos, eu, Clarita e Brown, quando o metrô já estava aberto de novo e o dia começava a despontar no horizonte.

Lapanassô é sinônimo de aventura.

Incluo aqui nosso segundo dia em Lille, pois é breve, para que possa dar início ao próximo post.

Dormi no chão, a Clerissa não me deu alternativa, e a janela entreaberta permitiu-me um ventinho muito gostoso na cara. Acordei, portanto, com dor de garganta. A ressaca tava braba pros meus dois amigos, não pra mim, que já sou calejado, e a fome era enorme para nós três. Fomos para o centro e mandamos um kebab violento. Tive dificuldades para terminá-lo, pra vocês verem como o bicho era grande. Andamos bastante por Lille, que se mostrou muito mais simpática durante o dia. Se da noite anterior tinha ficado a impressão de que Lille era boêmia em excesso, quase suja (apesar de acolhedora, mas isso por culpa de seus habitantes), com nossas andadas vimos que a cidadezinha é adorável, em muitos aspectos. Senti-me finalmente na Europa (agora muito mais que no dia anterior). Se quiserem ver fotos da cidade, vão ao Facebook do Allan Martino ou da Clarissa Ximenes, não tenho qualidades descritivas suficientes para dar um retrato verossímil da cidade.

Estávamos na Catedral de Notre-Dame de Lille quando começamos a sentir cheiro de prédio em chamas. Fomos à rua e vimos a quantidade de fumaça. Vimos também cinzas que vez ou outra desciam suavemente do céu. A fumaça era insuportável pro meu sistema respiratório e por isso decidimos ir para mais perto do foco, onde havia menos fumaça. Os pompiers de Lille trabalhavam arduamente para não deixar as pessoas verem o que estava acontecendo. Não precisaram de muito esforço, porém, pois algo foi enviado dos céus para desviar nossa atenção (ser humano adora olhar pro fogo, mas adora mais outra coisa) - 'Nossa, tá chovendo cinza! Ah, não, não é cinza! É neve! Tá nevando!'

Iupiiii! Pouco tempo depois começou a nevasca. Durante uma hora e meia caiu gelo do céu e os três brasileiros se divertiram como não tinham se divertido nesta viagem. Clarinha levou um tombo, claro. Brown levou altos pipocos de bola de neve - e não acertou nenhum em mim. Foi super. A neve parou de cair e horas depois a gente cansou, então decidimos ir pra casa. Entre o metrô e a casa da Clá era uma caminhada, e eu e Brown fizemos uma competiçãozinha de bola de neve. Eu ganhei, claro, tanto em consistência, quanto em peso, quanto em tamanho. Tomamos um banho, checamos o face, demos uma dormidinha curta e voltamos ao centro. A noite caiu sobre a neve e o espetáculo estava feito.

Depois de uma pernada no centro e um McDô, fomos à casa de uma italiana, amiga do Diego, outro brasileiro residente de Lille. Tinha umas 15 pessoas, cada uma mais diferente da outra. Todavia não posso dizer que foi muito divertido pois não nos enturmamos muito. Um bobão de cabelo comprido tava me irritando e Brown também não estava muito pra conversar. Voltamos a pé, praticando nosso novo esporte favorito, o Deslizamento em Asfalto com Gelo, do qual eu sou campeão e Brown é vice, claro.

Lille acabou, e embarcamos para Bruxelas no outro dia ao meio-dia. Lá o lapanassô que é uma beleza, fique atento!

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Lapin Assault - capitulo 2,0

Ao sair do segundo bar, estávamos bêbados. Lara estava tropeçando, soluçando, a coisa tava braba. Eu e Brown éramos os únicos do grupo que não estavam muito preocupados em ajudá-la - não porque não temos coração, ou nada do tipo, mas porque estávamos nos divertindo à beça falando mal dos outros e etc. Fomos andando pela rua, cheia de bares e gente em idade universitária. Nos sentíamos muito bem com a hospitalidade do pessoal em Lille - em Paris, impossível começar uma conversa com um desconhecido e esperar receptividade - e nos divertíamos com os estranhos, talvez do mesmo jeito que é possível fazer nas ruas de São Paulo.

Lara estava muito mal, já tinha caído algumas vezes, e entramos, portanto, em outro bar. O bar era menor e mais escuro que o anterior, com muito menos gente. Na entrada, um balcão e algumas mesas, e mais aos fundos, um sofá com uma mesinha na frente. Neste sofá estavam dois garotos, de uns 18 ou 19 anos. Não esperei meus escrúpulos chegarem e sentei-me ao lado deles. Parecia uma espécie de salinha reservada, e eles me olharam de um jeito um pouco ameaçador. Na mesa, várias bebidas - garrafas de destilados pela metade, batidas em jarras, copos sujos e latinhas de cerveja sugeriram que a festa tinha acabado e só sobraram aqueles dois por lá. Não falavam inglês, então comecei a falar em francês com eles, juro, e ainda me é mistério o fato de termos conseguido conversar. Mal, mas houve compreensão. Consegui arrancar deles um copo de whisky. Eu queria muito dizer pra um deles que ele parecia o Owen Wilson, mas não consegui. Chamei o Brown, então, para sentar-se conosco e traduzir a conversa. O resto do pessoal estava dançando e bebendo mais.

Divertimo-nos um pouco com os dois franceses e Brown roubou as luvas de um deles (censurei-o por isso no outro dia, mas não sem aproveitar pra usar as luvas, bem quentinhas, por muitos dias). Estávamos naquele estado da bebedeira livre de superego, e os arrependimentos (digo isso só porque minha mãe está lendo) apareceram no dia seguinte pelas coisas que fizemos então, tão somente por culpa da bebida.

El Magico, que deixamos no primeiro bar de nossa noite, estava de volta. Apareceu como que por mágica, coincidência ou não, e fez uma mágica de baralho comigo. Boa, a mágica. Ele era meio latino ou espanhol, sei lá. Teria jeito de Don Juan não fosse as roupas excessivamente underground. Dançou horrores, coreografias do Michael Jackson e tals, e forneceu-nos divertimentos mil. Deu 3 horas, porém, e os donos do bar estavam pedindo para que fôssemos embora. Lara estava mal, ainda, e eles deixaram ficarmos mais um pouco. Mas El Magico estava sendo expulso, mesmo com seu copo de cerveja pela metade. Sentou-se no balcão e falou que não sairia enquanto não terminasse a cerveja. Um homenzarrão e um mulherão gritavam com ele, e obrigavam-no a beber mais rápido. Ele dava uns golinhozinhos de nada. Eu falei pra ele, em espanhol, que bebesse logo a cerveja para que fôssemos embora. O homenzarrão gritou comigo, então, mandando-me calar a boca ou eu é que seria expulso. Tentei falar em francês que estava só tentando fazer El Magico beber logo, sem sucesso. Recebi outro cala boca e uma olhada nervosa. Repetiu-se a cena, meu amigo levou de novo patadas e patadas. Disse para ele de novo para que terminasse logo a cerveja e acabei sendo expulso. Duas garçonetes e um fortinho me empurraram pra fora do bar e ninguém viu. Uns 5 minutos de frio depois, Brown e Clarissa aparecem do lado de fora e me perguntam 'outra vez?'. Desta vez tinha sido por bom-mocismo, pelo menos.

Tá ficando longo demais, divido este 2º capitulo em dois, assim teremos, ainda, dois capitulos como o prometido. Um capitulo mais dois meios capitulos. Brownzinho tem apresentação da Fanfarra e vou encontrá-lo se eu encontrar aqui no Google Maps o lugar onde devo encontrá-lo.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Lapin Assault - capitulo 1

Prepare-se, mãe, pois não gostarás nem um pouco do post a seguir. Sugiro que, se a curiosidade permitir, pare de ler.

Chegamos em Lille. O trem é super rápido, o trem é bala, e chegamos rapidinho - deu nem pra abrir o livro. Clarisse encontrou-nos na estação, não sem se atrasar meia hora. Pegamos o metrô - são apenas duas linhas na cidade, que é pequetita - até a estação Fives e viemos andando até o conjunto Robespierre de moradias estudantis. Não sem antes passar no mercado e comprar nossa alimentação noturna. O bairro é meio perifa e cheio de muçulmanos, tem até uma mesquita na frente do prédio de habitação. Mas é bem bonitinho, cas casinha tudo igualzinha e tchutchutchu. Uma coisa que Brown mais tarde veio a falar da cidade serve-me para descrever minhas sensações, também - em Lille sentimo-nos na França, finalmente. Paris é muito maior que a França, muito maior.

No pequeno apartamento arrumamo-nos e deixamos a mulher cozinhar. Como a cultura aqui por perto é bastante muçulmana, achamos justo sermos servidos, e mais, obrigamos Clarice a cobrir a cabeça. Ela fez-nos um purê de batatas e a desculpa pra ele não ter sido um purê, mas um monte de pedaço duro de batata, é que 'só tem duas bocas de fogão, não consigo controlar tudo, a batata não cozinhou'... Tudo bem, estava muito bom. Fomos ao campus universitário, onde rolaria um festival de bandas. O lugar, a Maison des Étudiants, é meio maluco, uma espécie de Centro Acadêmico, como temos na USP, mais arrumadinho, e mais orgânico, sei lá. A cerveja era ecossustentável e alguém escreveu 'ouvrez votre soleil interieur' no muralzinho. A banda que vimos foi bem esquisita, de um jazz etíope, cheio de quebradeira com um cantor muçulmano malucão, com alcance vocal surpreendente. A vibe do lugar tava meio estranha, decidimos ir à cidade. Nesta, já havíamos conhecido Manolo, Marina, Marta, espanhóis, e Gustavo e Lara, brasileiros, todos amigos da Clarissa, intercambistas aqui em Lille.

Primeiro round: bar Salseiro. Banda de Ska maomenos, vários loucão. Manolo alertando-nos de como Lille pode ficar violenta quando regada a álcool, um amigo dele tinha levado uma cutillada em uma briga de bar, outro uns pontos na cabeça. Acalmem-se, não foi nada disso que aconteceu conosco - o destino reservara-nos algo menos violento e mais divertido. Um árabe começou a falar com o Brown sobre como a França é maravilhosa, falando coisas do tipo 'a maioria dos árabes e muçulmanos daqui é meio enfezada, fala que existe muito preconceito, mas tudo depende de como você se posiciona em relação a isso, eu superei...'. Esse bar esgotou-se e fomos embora quando uns bêbados começaram a encher muito as meninas. Um dos personagens da noite conhecemos neste bar - El Magico es su nombre. Fomos então ao segundo round, descrito a seguir.

Segundo round: fomos à rua Solferino, lugar dos bares mais pops de Lille. Entramos em um bonito, com cara de hamburgueria americana, e bebemos umas cervejas. Fizemos alguns amigos franceses, que estavam fazendo aula de espanhol e queriam gastá-lo conosco. Ficamos um bom tempo lá, até eu e Brown sermos expulsos. Não fizemos nada de mais, juro. É que a cerveja é meio cara e eu vi um pint dando sopa, só que atrás do balcão. Estava lá há muito tempo e não tinha dono. Entrei no balcão e peguei, com sucesso. Mas aí vem o exagero: da primeira vez funcionou, por que não funcionaria da segunda? Saímos para tomar um ar e quando voltamos, roubei a cerveja do segurança, um negão gordo com quem tínhamos conversado um pouco na entrada. A cerveja estava num balcão atrás dele, e ele estava brigandinho com uma galera na porta. Peguei a cerveja, saí andando e ele gritou pra mim. Fingi que não sabia o que estava acontecendo, claro. Ele veio e mostrou que sabia que eu estava com sua cerveja. Fui devolvê-la e ele foi pegá-la de mim ao mesmo tempo e o resultado é que a cerveja caiu toda nele. O verbo 'foder' conjugado na primeira pessoa do singular no pretérito simples me piscou em neon na cabeça. Mas, como o professor que fica triste de ter que tirar o aluno da sala, apenas apontou-nos a saída - Brown estava do meu lado. Chamamos o resto da galeris e fomos ao terceiro round.

Estamos meio atrasados pra pegar o trem pra Bruxelas, então divido em dois este post. Tem MUITA coisa pra acontecer, ainda, viu, amiguinhos?

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

La musique, c'est ma Bastille

A reflexão sobre a arte moderna e contemporânea fica pra outra vida, cansei de pedantismo. Pulo, portanto, a ida ao Pompidou, salvo um breve comentário: arte moderna e a arte contemporânea são blah.

O que ficou de segunda-feira foi o Gipsy Jazz, em um bar perto do Panthéon. Toda segunda-feira se apresenta neste bar um trio de Jazz - baixo acústico, violão e violão. O virtuosismo reina na apresentação e Zeus sabe o quanto eu detesto virtuosismo por virtuosismo. Mas não era isso. A energia e o gosto pela música dos três era evidente e contagiante. Temas bem trabalhados e até harmonias improvisadas mostraram que mais que notas por minuto, eles sabiam o que estavam fazendo. Melhor ainda, em instrumentos surrados e manchados de suor. O bar, desses parisienses, tinha o teto bem baixo e as paredes lotadas de garrafas e ornamentos inidentificáveis. A primeira sala era para os que queriam conversar, a segunda, 3 vezes maior, para os que queriam ouvir o trio. Dito e feito, quando começaram a tocar as luzes diminuíram e ouvia-se um 'shhh' toda vez que alguém começasse uma conversa. Um grupo de brasileiras não respeitou a lei da casa e saiu, todas elas enfezadinhas, quando o quarto ou quinto 'shhh' foi direcionado a elas.

Dos violões, um solo, outro base, gostei mais do base. Além de tocar melhor, era mais carismático (não o violão, o francês que o tocava) - no fim do show pegou um pandeiro e cantou um samba com a brasileira que havia dançado o show inteiro sem parar (aliás, le petit monde veio-nos com mais essa - eu e Brown conhecíamos a garota, cada um por um meio diferente).

Bom, embasbaquei-me com o trio e senti uma vontadezinha (já passou, mãe) de ficar por aqui e viver de música.

Terça-feira acordamos tarde e ficamos em casa na maior parte do dia. À noite o Brown teve ensaio com a fanfarra da faculdade e fomos à Val de Seine. Brown é o único estrangeiro da fanfarra, e eu ficar lá só me foi suportável porque a música estava boa. Não são grandes músicos, salvo um dos trompetistas, mas a orquestrinha de metais se dá bem em conjunto - apesar de ter gente lá que não consegue entrar no tempo e às vezes cada um tocar uma coisa, assemelhando-se muito à orquestrinha do Chaves. Brown é muito menos mal humorado em um ensaio com eles que em um ensaio da Quarto e Sala, engraçado... Não olhou feio pra ninguém do jeito que olha feio pra mim...

Saímos do ensaio, compramos umas cervejas e bebemos na praça da Bastilha (é verdade, derrubaram, mesmo, cheguei atrasado...). Conversamos sobre política/polícia e os prospectos sociais de 2012.

Ontem Brown foi com sua petit amie romena a uma exposição no Hôtel de Ville e eu fiquei em casa esperando notícias do Zé Café. Quando as recebi, fui à Decathlon encontrar Brown e comprar um casaco, depois fomos juntos à casa do Sergio, o espanhol chato pra cacete. A ideia era fazer um jantar internacional, cada Erasmus que levasse uma comida de seu país. Levamos pizza congelada e decidimos que não fugia tanto assim da realidade. Zé Café me ligou e fui encontrá-lo em um pub na Chatêlet. Zé ofereceu-me um quilo de resmungos por saudades do Brasil e, claro, aquele humor enfezado que não muito conheço e estranhamente tanto sinto falta. Paulinha estava lá também. Voltei a pé pra casa, sozinho, pois Brown havia ficado na casa do Sergio e dormiria na casa de sei lá quem.

Hoje embarcamos para Lille (embarca-se em um trem, também?!) e com certeza vou perder os dedos do pé.