sábado, 28 de janeiro de 2012

Sacre Coeur

O que mais afasta o ser humano dos outros animais não é polegar opositor, telencéfalo evoluído, linguagem, nada disso. Eis o que realmente nos afasta: somos os únicos bichos capazes de criar algo que transcende nossa compreensão. Ok, somos os únicos capazes de compreensão, mas isso não mata nem fere o que eu disse.

A Torre Eiffel é enorme. Não tanto em tamanho, não tanto em largura. A Torre Eiffel é enorme em mim. Não, não estou dizendo que virei destes que compra uma camiseta 'J'aime Paris' e sai desfilando por aí. Também não estou dizendo que fiz como a excursão de coreanos e não olhei a Torre, que apenas a fotografei. Digo que a Torre Eiffel é enorme em mim porque eu olhei pra ela e ela nem olhou pra mim, nem se mexeu, nem pisou em mim, como achei que faria. A Torre Eiffel é enorme em mim porque fui eu ou foi um irmão meu que a levantou, e fui eu ou foi um irmão meu que não deixou que a derrubassem. A Torre Eiffel é enorme em mim porque ela não cabe em mim e porque ela está em mim, descabida.

Desejei algo hoje que nunca desejei - que todos os seres humanos sumissem da face da terra e deixassem-me a sós com Paris. Um par de horas é o que peço. Conversei muito com o Brown sobre o turismo, a inutilidade do turismo, e todas as coisas toscas que o turismo atrai. Disse a uma amiga que estou, sim, e estarei por um bom tempo, apaixonado por Paris, mas meu amor é São Paulo. Talvez esse seja um dos motivos - em São Paulo ninguém está lá só pra tirar foto, só pra comprar souvenir, só pra entrar no monumento X. Em São Paulo se vive. Ainda que em Paris se viva, e seja um lugar muito melhor pra se viver que a metrópole brasileira, vive-se muito menos e fala-se da vida muito mais.

Desculpem-me pela divagação emocionada. A verdade é que nem mereço dizer isso dos turistas - a compreensão dessa cidade e de tudo que a contém foi transcendida e eu não posso achar que posso olhar com os olhos que olho a minha cidade. Talvez tenha até aprendido a olhar minha própria cidade com outros olhos ou com olho nenhum. Mas fiquei um tanto decepcionado quando entrei na magnífica Basilique de Sacre-Coeur e vi que há lojas dentro do templo.

Minha decepção é com o ser humano, que tem o poder lindo de criar coisas maiores que ele e acaba fazendo coisas tão menores...

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